quinta-feira, 26 de julho de 2012

Plano de Aula: Língua Portuguesa - EM

As Fases da Poesia de Drummond


Vinte e cinco poemas inéditos de Drummond foram descobertos recentemente. Aproveite o fato para apresentar as diferentes fases deste poeta aos alunos

drummond


Objetivos

-Analisar nos poemas inéditos a gênese da formação poética de Carlos Drummond de Andrade em comparação com sua obra madura.
- Contextualizar a obra de Drummond como um dos marcos da geração de 1930.
-Destacar os elementos característicos da poesia de Carlos Drummond de Andrade em especial: a ironia, o humor, a poesia de matiz social e a análise metafísica do mundo.
- Observar a influência da obra poética de Drummond na poesia e na música do século 20.- 
- Comparar os poemas de Drummond com a sua obra de formação e com canções e poemas de outros autores.

Anos
Ensino Médio

Conteúdos
- Geração de 1930
- Poesias de Carlos Drummond de Andrade
- Comparação literária


Tempo estimado
Quatro aulas

Materiais necessários
- Cópias da reportagem "A pré-história de Drummond" (Bravo!, edição 178, junho de 2012)
- Cópias dos poemas "Poema das sete faces"; "O amor bate na aorta"; "José" e "A morte do leiteiro", de Carlos Drummond de Andrade e do poema "Com licença poética", de Adélia Prado para todos os alunos.
- Cópias das letras das canções "Let’s play that", de Jards Macalé e Torquato Neto, e "Até o fim", de Chico Buarque.
- Computador com projetor de vídeo para a exibição do curta-metragem "O Fazendeiro do ar", dirigido por Fernando Sabino e David Neves.


Introdução
Carlos Drummond de Andrade, mineiro de Itabira radicado no Rio de Janeiro, é um autor de dimensão universal. Sua obra é das mais significativas, não apenas para a literatura brasileira, mas para toda a literatura de Língua Portuguesa. 
As características de sua poesia podem ser analisadas como um processo. Inicialmente, é notável a influência da geração heroica do Modernismo, especialmente Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manual Bandeira. Em 1930, Drummond publica o livro Alguma poesia. Neste volume, ficam claras a ironia, a coloquialidade, o prosaico e uma leitura não convencional do cotidiano. A visão de mundo do poeta aparece como um modo de propor uma reflexão subjetiva sobre temas amplos como ser brasileiro, o amor, a literatura, a política, a religião e impressões poéticas de viagens e cidades. Muitos poemas desta obra surgem de acontecimentos do cotidiano, aparentemente banais, mas que servem como reflexões poéticas e líricas sobre a vida. É também clara a filiação ao Modernismo, evidente com o uso do verso livre, uma sequência natural das rupturas estéticas e temáticas proporcionadas pelo movimento de 1922.

Nos livros seguintes, Brejo das Almas, Sentimento do Mundo, José e A rosa do povo, o poeta busca um aprofundamento desta subjetividade. A ironia e o humor vão se diluindo em uma visão de relativa amargura que culmina em um clima de denúncia social, próprio do intervalo entre 1930 e 1945. No Brasil, estava em curso a Era Vargas e a ditadura do Estado Novo. Na Europa, acontecia a ascensão de Hitler e do nazi-fascismo, a revolução comunista e a escalada de violência e dos conflitos políticos que culminaram na Segunda Guerra Mundial. 

Este espírito da época reflete-se na poesia de Drummond. Nota-se a presença da angústia sobre o destino da humanidade, a incerteza sobre a efemeridade da vida, a dúvida sobre o caráter benevolente do ser humano e uma relativa obscuridade. Por meio de um tom social, o poeta expõe os absurdos do "mundo, vasto mundo", onde as rimas não são propriamente soluções, mas expressões, ora irônicas, ora angustiadas, do espírito de seu tempo.

A poesia de Drummond assume, após este período, um viés metafísico e existencialista. O questionamento passa a ser a própria condição humana e o poeta resgata as marcas irônicas e as preocupações formais que marcaram sua obra. Ao final de sua vida, na passagem dos anos 1970-1980, produziu uma obra mais sentimental, menos preocupada com as inovações formais ou as angústias metafísicas do início. 

Na reportagem "A pré-história de Drummond", BRAVO! destaca o aparecimento do livro 25 poemas da triste alegria, escrito em um único exemplar durante a juventude do poeta e desconhecido por boa parte da crítica. As poesias, que ficaram inéditas por quase 90 anos, foram descobertas e serão publicadas neste mês. A reportagem publica seis dos 25 poemas, que são um bom ponto de partida para analisar as características da poesia de Drummond.


Desenvolvimento

Aula 1
Antes de iniciar, leia a reportagem de Bravo! e destaque nas poesias inéditas de Drummond elementos que possam indicar a gênese de sua poesia. Observe a influência da estética penumbrista e  menções a palavras e temas que são estranhos à obra madura do poeta. Destaque a preocupação com a musicalidade e o ritmo das palavras e do interesse por questões de seu tempo, aspectos que seriam aprofundados posteriormente. Compare, por exemplo, a ironia presente em "A sombra do homem que sorriu" com a terceira e a quarta estrofes do "Poema das sete faces". Procure encontrar as principais diferenças entre o poeta em formação daquele que viria a ser considerado, na maturidade, um dos mais importantes da nossa língua. 

Comece a aula contando sobre a vida e obra de Drummond. Informe seu local de origem e a formação em Belo Horizonte. Conte também sobre a colaboração com a imprensa e a necessidade de trabalhar como funcionário público que o impediu (segundo suas próprias palavras) de se tornar um anarquista militante. Demonstre que Drummond e outros poetas da chamada geração de 1930 do Modernismo não necessitavam da afirmação estética, tão cara aos pioneiros de 1922. Isso permitiu a variedade de temas, que torna, especificamente no caso do poeta mineiro, a poesia mais reflexiva e participativa. Em outros autores, essa liberdade proporcionada pela geração de 1922 deixou o caminho aberto para a utilização de versos livres ou tradicionais, e também uma temática que em alguns momentos tendeu ao sentimentalismo e ao retorno às formas e estéticas tradicionais, como o soneto (em Jorge de Lima e Vinícius de Morais) e o Simbolismo (em especial, na poesia de Cecília Meireles).

Após esta apresentação, distribua à turma cópias da reportagem "A pré-história de Drummond". Destaque a importância da publicação de Os 25 poemas da triste alegria pela possibilidade de observar neles a gênese da obra lírica que marcaria a poesia brasileira no século 20. Ainda que considerados "menores", os poemas encontrados no livro são importantes para a formação do poeta. A seguir, faça uma leitura coletiva do "Poema das sete faces". Explique o modo como este poema, que abre o primeiro livro de Drummond, pode ser lido como uma apresentação que o autor faz de sua poesia. Em sete estrofes (as sete faces) são apresentados sete aspectos da personalidade do eu-lírico. 

Explique que o poema apresenta, em tom de ironia amargurada, uma profissão de fé do poeta, que expõe sua posição em relação ao mundo. Logo na primeira estrofe, a face revelada é a de um gauche, palavra francesa que indica um indivíduo com dificuldades de adaptação, de caminho tortuoso e opções equivocadas, marginal inadaptado desde o início da vida. Isso pode ser comparado com a visão de mundo angustiada e irônica, mas sempre sensível, que marcou a obra poética de Drummond. Na segunda estrofe, há a insinuação do erotismo como uma busca desenfreada, um fim em si mesmo, que acaba se tornando um elemento de tristeza, que impede a tarde de se tornar azul, brilhante, por conta da vinculação aos desejos incontidos. 

Na terceira "face" do poema, o eu-lírico remete à vida frenética e sem descanso das grandes cidades, com seus bondes cheios de pernas, idas e vindas sem sentido aparente - note que são "pernas" e não "rostos", o que remete à coletivização e à desumanização das pessoas em sua busca pela sobrevivência. O coração do poeta questiona o motivo de tanta correria desenfreada, mas seus olhos, analíticos e frios, resignam-se em apenas observar, como quem se resigna diante de um fato sobre o qual não se tem influência. Na quarta estrofe, os "olhos" do eu-lírico observam um homem que se apresenta com uma aura aparente de seriedade, simplicidade e força. No entanto, podemos interpretar o bigode como uma máscara social que torna o homem comum um ser com dificuldades de convivência, e o faz fechado em si mesmo. Mesmo quando o homem tem um rosto e não apenas uma perna, sua identidade também se dilui na busca pelas aparências, mais importante do que a essência de seu espírito. 

Na quinta estrofe, observamos um retorno ao problema do modo tortuoso que o eu-lírico vive a vida. Este trecho indica uma dificuldade de adaptação e faz referência à passagem bíblica em que Cristo pergunta a Deus por que o havia abandonado. A inadaptação, aliada às contradições do gauche, deixam evidente a angústia desta condição, que leva o eu-lírico a se identificar com o sofrimento angustiado da expiação de Cristo. A sexta "face" pode ser interpretada como uma crítica ao modo parnasiano de fazer poético - a busca pela rima perfeita que não produz soluções à angústia do ser nem ao problema da tortuosidade e da inadaptação, mas apenas resolve o problema do poema, da arte distanciada da realidade. Finalmente, a sétima estrofe revela o motivo de tanta digressão, por parte do eu-lírico: a distorção se apresenta em tom de confidência, como se a visão angustiada e também irônica presente no poema fosse fruto de uma comoção causada pelo excesso de bebida e de luar.  Após a leitura e análise do "Poema de sete faces", indique à turma que leia "A mulher do elevador". Peça que encontrem elementos comparativos entre os dois poemas. 

Questione as possíveis relações entre a saudade de uma mulher "sem cara", que sobe em um elevador, e passa como uma sombra fugaz, com as "pernas" que passam num bonde, ou homem que se esconde atrás de uma máscara social. Para a próxima aula, peça aos alunos que escrevam as conclusões a que chegarem a partir da leitura e das características da obra mais madura de Drummond. 

Aula 2
Solicite a socialização das reflexões feitas a partir da aula passada. Anote no quadro todas as ideias. 

Retome o "Poema de sete faces" e mostre que esta poesia foi tão marcante para a literatura que recebeureleituras poéticas e musicais. Na poesia, a mais célebre é "Com licença poética", de Adélia Prado, que retoma o motivo do poema de Drummond sob o ponto de vista de um eu-lírico feminino. Na música, Chico Buarque, com "Até o fim" e Jards Macalé e Torquato Neto, com "Let’s play that", fizeram suas homenagens ao poema. 
Distribua aos alunos cópias do poema de Adélia Prado e das letras das músicas. Se possível, execute as canções após a leitura. 

Peça à turma que estabeleça  comparações entre o "Poema de sete faces", "Com licença poética" e as canções. Anote no quadro os elos encontrados. Observe que a correspondência entre as músicas e os dois poemas é bastante evidente: todos falam da vida tortuosa, que "desafina" o coro dos contentes. No caso específico de Adélia Prado, há uma aproximação da condição da mulher no século 20 à dificuldade de adaptação ao mundo masculino, mas que no final, evidencia um caráter de força, apesar ou mesmo por causa desta necessidade de sobreviver à sina feminina de submissão. O poema questiona essa submissão ao afirmar que a mulher carrega uma bandeira e possui um caráter desdobrável, ou seja, adaptável às situações, ao invés do caráter "coxo" (deficiente) do homem.

Peça aos alunos que, a partir das comparações, escrevam um texto em prosa ou em verso, explicando o que é essa característica de ser gauche, da sina de pessoas inadaptadas. Indique que discorram sobre o que pode ser positivo e negativo em ser gauche no mundo. 

Aula 3
Peça para que a turma leia o que produziu. A seguir, faça uma leitura do poema "O amor bate na aorta". Demonstre a intenção irônica do poeta em demonstrar o amor como uma entidade indomável, que tira do sério as moças e os homens, vira o mundo de cabeça pra baixo, mas que invariavelmente está presente e de certa maneira se torna um incômodo, até mesmo físico e inconveniente durante a vida. O poema demonstra o contrário da idealização tradicional do amor, comum na poesia romântica e parnasiana. Neste poema,mais do que um sentimento "puro", é um sentimento físico, que atinge a aorta, que leva à constipação, que ronca,  faz cócegas e se realiza na "geometria" e na "curva" de corpos. É possível identificar o amor como um garoto travesso, que pula muros, sobe em árvores, cai, se machuca, mas sempre deixa sua marca - uma ferida que nunca sara, e que às vezes, se cura no dia seguinte, e segue pronto para recomeçar suas estrepolias. Compare este poema com o inédito "Gravado numa parede" (que está na reportagem de Bravo!). 

No poema feito na juventude, o poeta idealiza e se lamenta por um sentimento perdido, num tom melancólico que o aproxima do romantismo. Observe que a solução para as "lágrimas que enchem os olhos", no poema "O amor bate na aorta", é assistir a filme de Carlitos. 

Sugira à turma que comentem os motivos que teriam levado Drummond a mudar de uma visão melancólica do amor a uma ideia irônica de um amor travesso e incompreensível, ainda que necessariamente presente. 
Peça que comentem que tipo de amor caberia mais em nossos dias: o amor melancólico, irrealizável, como no poema "Gravado numa parede", ou o incontrolável, risonho e hiperativo, de "O amor bate na aorta". Solicite que discutam em duplas as diferenças entre o poeta em formação e o poeta maduro, e a seguir, exponham suas conclusões. 

Aula 4
Inicie a aula exibindo o filme "O fazendo do ar". Indique as características da formação do poeta a partir de suas próprias palavras: a importância da família e do nascimento na cidade de Itabira; o modo de ser "mineiro"; o contraste com a vida burocrática de funcionário público no Rio de Janeiro.

Distribua e leia com os alunos o poema "José". Demonstre que é uma forma encontrada pelo poeta de expor a encruzilhada em que o homem comum encontra-se quando se dá conta das carências, da felicidade extinta. Compare o José do poema com o gauche do "Poema de sete faces". É possível encontrar algo da tortuosidade do eu-lírico inadaptado, torto, fora do eixo, gauche, com o eu-lírico de José? No "Poema de sete faces", a culpa pela inadaptação é de "um anjo torto", que "vive na sombra". Em "José", nota-se que a responsabilidade pela situação de indefinição é do próprio eu-lírico, que não encontra saída para a angústia de sua vida. Qual seria o motivo para tal indefinição? 

Proponha à classe uma atividade avaliativa. Peça que leiam o poema "José" e também "Morte do Leiteiro". A seguir, proponha que os alunos escrevam um texto em que se possa relacionar a angústia de "José" ao medo que leva ao assassinato de um inocente, no poema sobre o leiteiro. Reserve uma parte da aula seguinte para a leitura coletiva das produções dos alunos. 

Avaliação
Observe se os textos produzidos demonstram compreensão do contexto da obra de Drummond. Utilize as discussões como base para saber se a turma entendeu os elementos irônicos, sociais e analíticos e a influência desta obra poética na literatura do século 20. Verifique também se os alunos conseguiram encontrar elementos relacionados à obra do poeta quando jovem e a sua obra na maturidade.

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